Sanfoneiro, José Ivanaldo da Silva é cego desde os três meses de vida (Foto: Felipe Gibson/G1)
Superar
a falta da visão faz parte do dia a dia de José Ivanaldo da Silva desde
os três meses de vida. Hoje, com 38 anos, o Exame Nacional do Ensino
Médio é encarado como mais um desafio. Mesmo sem ver, o sanfoneiro não
poupa esforços para manter a rotina diária de estudar pelo menos seis
horas. "Vou à luta", é o que ele diz reconhecendo a limitação para
alcançar o objetivo de cursar música em uma universidade pública.
Completamente cego, ele resume o que teve de enfrentar durante a vida
inteira: "nunca vi nada".
Na
prova do Enem, que acontece neste sábado (26) e domingo (27), Ivanaldo
contará com a ajuda de um ledor para responder a avaliação oralmente. Já
nos estudos em casa, o apoio vem do computador. "A tecnologia veio para
ajudar", afirma o sanfoneiro. Ele assiste aulas online para
complementar o ensino do cursinho. Para se preparar para o Enem,
Ivanaldo também participa de um grupo de estudos formado por outros
quatro deficientes visuais. As reuniões acontecem na Universidade
Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) todas as semanas.
Mesmo
com as opções de estudo, o músico sabe das limitações. "Tem momentos
que é difícil. Na sala de aula, por exemplo, perco muito conteúdo que é
escrito no quadro e o professor não comenta. É como estar atrás de uma
parede. Você acredita no que lhe dizem, mas não assimila", explica.
Outra queixa de Ivanaldo é referente aos gráficos e formas geométricas,
cuja deficiência o impede de ver.
Natural de Angicos, na região Central potiguar, Ivanaldo mora há sete anos em Natal,
para onde se mudou pela oportunidade de participar de um curso de
informática. Atualmente se vira sozinho em uma casa no bairro de Felipe
Camarão, na zona Oeste da capital. Além dos estudos e dos afazeres
domésticos, ele faz parte do projeto Esperança Viva, da própria UFRN, onde toca flauta doce.
Chegar
ao curso de música, segundo ele, seria um sonho - ainda mais para quem
entrou em uma sala de aula pela primeira vez aos 26 anos de idade. "Era
uma aula normal, mas eu já estudava braille. Mesmo assim, era difícil
passar as coisas para mim", conta. Além de sanfona e flauta doce,
Ivanaldo também sabe tocar violão.